Design Universal para a Aprendizagem
Por Profa. Dra. Cícera A. Lima Malheiro

A concepção do Design Universal para a Aprendizagem (DUA)/ Universal Design forLearning (UDL) se desenvolveu originalmente no contexto dos Estados Unidos da América (EUA), no ensino fundamental, médio e superior, e foi incorporada na formação de professores (inicial, continuada e em serviço) resguardada pela legislação federal (HALL et. al. 2012).
Atualmente, é desenvolvido em outras localidades do mundo, tais como Canadá, Japão, na África do Sul, e alguns países da Europa, como Bélgica e Reino Unido (OLAUSSEN et. al. 2019; SATAR, 2019). Pesquisas desenvolvidas nesses países demonstram que ao adotar o DUA, tanto em princípio, quanto na prática, é possível melhorar as oportunidades de aprendizado para todos os alunos.

No Brasil constata-se algumas pesquisas que contribuíram para darem início aos estudos na área (BÖCK, 2019, ZERBATO, 2018, PACHECO, 2017, PRAIS, 2016, MARCOS, 2013) que tiveram como foco a educação a distância e a educação básica.

Leia também: O Desenho Universal Para a Aprendizagem e as Contribuições na Educação a Distância

O DUA é uma estrutura educacional baseada em pesquisas nas ciências da aprendizagem, e orienta o desenvolvimento de um planejamento educacional inclusivo, no qual acomoda e desafia a todos os estudantes, além de promover o desenvolvimento de tecnologias digitais inovadoras e críticas (BRACKEN; NOVAK, 2019). Trata-se de um processo de organização metodológica que utiliza soluções educacionais diversificadas empregadas com a finalidade de estimular um aprendizado e acessibilidade de conhecimento a todos, sendo assim, essa concepção parte do princípio de que todas as pessoas são diferentes e possuem formas variadas de aprender. Portanto, a sua orientação concentra-se na eliminação das barreiras curriculares ao mesmo tempo, em que se preocupa com as experiências educacionais de todos os alunos, entre esses, os que tradicionalmente estiveram à margem dos processos educativos (BRACKEN; NOVAK, 2019), como, por exemplo os estudantes com deficiência. Entendendo que quando é proposto o desenvolvimento e implementação de ações inclusivas em processos educacionais, é preciso considerar os estudantes com e sem deficiência. Isso porque entende-se a inclusão dentro de um conceito mais amplo, que engloba o atendimento de toda variação da diversidade humana.


Nota: Nesse contexto utiliza-se a palavra Design e não Desenho, por entender design como uma ação projetual que envolve elementos de assimilação da realidade, por meio de soluções para problemas reais. Relacionando o Design aos processos da educação inclusiva, destina-se a organização e projeção dos recursos, práticas e metodologias que incluam a diversidade humana e visa preparar os estudantes para participar ativamente como cidadãos (MALHEIRO)

 

Há uma associação do Design Universal para Aprendizagem (DUA) com o Design Universal (DU). Apesar do DUA e o DU compartilharem um objetivo em comum, que considera as variações da diversidade humana, os princípios e técnicas e prática em cada um deles são distintos. O DUA tem como foco o ensino e o aprendizado acessível, seus princípios e suas diretrizes foram desenvolvidos com base nas referências a respeito das ciências de aprendizagem e neurociência. Essas ciências contribuíram no entendimento do aprendizado no cérebro individual, no qual é descrito como altamente diversificado e distribuído, assim como o aprendizado entre sujeitos diferentes também é diverso.


Dessa forma os seus princípios proporcionam orientações para a elaboração de processos dinâmicos de ensino e aprendizagem tendo em vista a construção de um currículo acessível. Visando ampliar o entendimento para os processos pelos quais os estudantes acessam o conhecimento, não somente vislumbrando recursos que eliminem as dificuldades (barreiras), mas pensando e projetando um currículo inclusivo (BOCK et. al. 2018, p. 152). Os autores destacam que ser universal não significa ser igual para todos, mas implica que currículos e materiais devam ser concebidos e projetados para acomodar a maior variedade possível de preferências e necessidades dos aprendizes. Isso significa que a sua aplicação e utilização nos processos de ensino e aprendizagem contemplem não só as pessoas com deficiência, mas sim, os demais estudantes.


De acordo com Hall et. al. (2012) existem três conjuntos de redes cerebrais (Center for Applied Special Technology – CAST, 2020) que unidas, trabalham para coordenar atos simples e que nos ajudam a entender melhor como o cérebro funciona durante episódios de aprendizado. Neles, revelam os fundamentos da aprendizagem e nos permitem analisar o currículo e como os estudantes interagem com ele. São as seguintes:

      • Afetivas: são especializadas para avaliar padrões e atribuir-lhes significado emocional. Essas redes permitem envolver-nos com tarefas, aprendizado e com o mundo ao nosso redor.
      • Reconhecimento: são especializadas para detectar e atribuir significado ao que é acessado e visualizado, essas redes nos permitem identificar e entender informações, ideias, padrões e conceitos;
      • Estratégias: referem-se principalmente às funções executivas e são especializadas para gerar e supervisionar padrões mentais e motores. Eles nos permitem planejar, executar e monitorar ações e habilidades;

redes
A partir destas redes, são estruturados três princípios, que orientam o desenvolvimento de um currículo eficaz, útil e inclusivo e portanto ajudam os educadores a considerarem maneiras diversificadas de organizar meios de engajamento, representação e expressão de ação em seus projetos educacional (HALL et. al. 2012), são eles:

      1. Envolvimento: entende-se que o afeto representa um elemento crucial para o aprendizado e os alunos diferem acentuadamente nas maneiras pelas quais se envolvem ou se motivam a aprender.
      2. Representação: as diretrizes de representação nos lembram de disponibilizar vários formatos ao ensinar a ativar todas as redes de reconhecimento de alunos.
      3. Ação e expressão: é imperativo envolver os alunos e apresentar o conteúdo de forma acessível, no entanto, para verificar se os alunos aprenderam o conteúdo, os docentes precisam avaliar o aprendizado usando diferentes estratégias, assim, os alunos têm opções em relação ao tipo de avaliação e maneiras de apresentar evidências do seu desenvolvimento, bem como se alcançaram seus objetivos.


Os princípios do DUA, permitem reconhecer que a variação entre sujeitos é a norma, e não a exceção. Para tanto, o currículo precisa ser organizado atendendo às diferenças individuais. Esse processo engloba um planejamento educacional que inclui uma vasta variabilidade: linguística, cultural, cognitiva, educacional, interativa e sensorial (Hall et al., 2012).


Considera-se importante enfatizar que as diretrizes do DUA não devem ser entendidas como "prescrições", mas como orientações estratégicas que devem ser analisadas, estudadas e empregadas para superar as dificuldades inerentes ao design educacional de programas formativos existentes (TOBIN; BEHLING, 2018; RAPP, 2014). Hall et al (2012) esclarecem que as diretrizes são úteis para três propósitos principais: como ferramentas para apoiar o planejamento educacional de um curso, de uma disciplina ou unidade curricular; para avaliar métodos ou materiais didáticos; e facilitar a discussão sobre o currículo inclusivo.


Pesquisas realizadas por Hall et al. (2012) confirmam que as diretrizes do DUA auxiliam os docentes na tomada de decisões, pois este, é caracterizado como um instrumento orientador para a organização das práticas, das estratégias, dos recursos materiais e dos processos mediadores, ou seja, os projetos educacionais que se configuram como mais adequados para atingir os objetivos da formação dos estudantes. Para isso, é preciso garantir a abrangência e diversidade de habilidades, déficit e deficiências de aprendizagem, presentes em qualquer grupo de estudantes, e em qualquer nível de ensino. Os autores explicam que essas diretrizes contribuem no planejamento e estruturação de estratégias, objetivos, métodos, materiais e avaliações curriculares para garantir que as barreiras no processo educativo sejam removidas.


Entende-se que a partir do que pontuam os pesquisadores Bock et al. (2018), o foco dessa abordagem deve ser deslocado para as distinções no processo da aprendizagem dos estudantes e não na condição apresentada no seu diagnóstico. Apesar de, as pessoas possuírem diagnósticos de deficiência, transtornos, ou não possuírem necessariamente um diagnóstico específico, há a possibilidade de terem necessidades distintas em seu processo de escolarização, diante das metodologias utilizadas, na compreensão das estratégias empregadas ou nos recursos a serem disponibilizados.


A partir do Bock et al. (2018), entende-se que as ações que possibilitam o acesso e a participação em processos educativos e curriculares, não devem ser pensadas apenas pela égide de legislações, é preciso compreender que são necessárias as mudanças na adoção de estratégias metodológicas para adequar os processos educacionais às necessidades, às potencialidades e às características dos estudantes.


Em síntese, as diretrizes do DUA podem ser usadas como ferramentas eficazes para verificar e determinar se existem dificuldades em um currículo existente. Nesse sentido, o exercício torna-se valioso para usar como referencial como reflexão sobre uma intervenção que foi ineficaz. As estratégias específicas sugeridas pelas diretrizes oferecem informações sobre a maneira de melhorar o planejamento educacional para atingir todos os estudantes. Por meio delas, possibilita serem utilizadas no estágio de planejamento, e/ou na estrutura de uma discussão sobre a eficácia de uma tarefa (TOBIN; BEHLING, 2018; RAPP, 2014; HALL et. al. 2012).

Considera-se relevante destacar que o objetivo do DUA não é facilitar o aprendizado. Em vez disso, é proposto o aprendizado com diversos desafios. O objetivo da DUA é manter os desafios desejáveis, enquanto reduz ou elimina "desafios indesejáveis", ou seja, dificuldades e barreiras no aprendizado. Outro aspecto destacado na literatura é referente às Tencologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), no qual esses recursos, se bem empregados, podem potencializar o processo de aplicação das diretrizes propostas no DUA.


 Assista:  O Desenho Universal Para a Aprendizagem e as Contribuições na Educação a Distância

 Profa. Dra. Geisa Letícia Kempfer Böck - UDESC


 Assista: Design Universal para Aprendizagem: Currículo Inclusivo
Profa. Dra. Elizabete Renders - USCS


 


Referências

BRACKEN, S.; NOVAK, K. Transforming higher education through universal design for learning: an international perspective. Routledge, Taylor & Francis Group, New York, 2019.

BÖCK, G. L. K. O desenho universal para a aprendizagem e as contribuições na educação a distância. Tese de Doutorado. Programa de Pós graduação em Psicologia. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 2019.

BÖCK, G. L. K; GESSER, M.; NUERNBERG, A. H. Desenho Universal para a Aprendizagem: a Produção Científica no Período de 2011 a 2016. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v.24, n.1, p.143-160, Jan.-Mar, 2018.

CAST. Center for Applied Special Technology. Universal Design for Learning Guidelines version 2.0. Wakefield, Disponível em: http://udlguidelines.cast.org/ acesso em 20 dez de 2020.

HALL, T. E. et. al. Universal design for learning in the classroom: practical applications. The Guilford Press. A Division of Guilford Publications, Inc 72 Spring Street, New York. 2012.

MARCOS, J. R. Usabilidade, acessibilidade e desenho universal para aprendizagem: experiência de usuários na educação a distância. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós graduação em Design Instituição de Ensino. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2013.

OLAUSSEN, E. J. et. al. Universal Design for Learning. License to learn. A process for mapping a Universal Design for Learning processo on to campus learning. (in) BRACKEN, S.; NOVAK, K. Transforming higher education through universal design for learning: an international perspective. Routledge, Taylor & Francis Group, New York, 2019.

PACHECO, D. P. O. Ensino de ciências a partir do desenho universal para a aprendizagem: possibilidades para a educação de jovens e adultos. Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Instituição de Ensino. Bagé: Fundação Universidade Federal do Pampa, 2017.

PRAIS, J. L. de S. Formação inclusiva com licenciandas em pedagogia: ações pedagógicas baseadas no desenho universal para a aprendizagem. Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Humanas, Sociais e da Natureza. Londrina: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2016.

RAPP, W. H. Universal design for learning in action. 100 ways to teach all learners. Paul H Brookes Publishing Co. Baltimore, Maryland. 2014.

SATAR, A. A. Promoting digital acess and inclusivity in open and distance learning in South Africa. A UDL apprach (in) BRACKEN, S.; NOVAK, K. Transforming higher education through universal design for learning: an international perspective. Routledge, Taylor & Francis Group, New York, 2019.

TOBIN, T. J.; BEHLING, K. T. Reach Everyone, Teach Everyone. Universal Design for Learning in Higher Education. West Virginia University Press. Morgantown. 2018.

ZERBATO, A. P. Desenho universal para aprendizagem na perspectiva da inclusão escolar: potencialidades e limites de uma formação colaborativa. Tese de Doutorado. Programa de Pós graduação em Educação Especial. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2018.